Eu Onírica


26/05/2010


ORAÇÃO AO TEMPO

 

Tempo,
Senhor das intempéries
Dizimador das agruras humanas        Socorrei-me...

 

Tempo,
Que escorre a água na pedra até furar
Que seca as lágrimas dos olhos que acabaram de chorar          Socorrei-me...

 

Tempo,
Que só com o tempo nos ensina o bom caminho
Que um dia gera o salto do pássaro de seu ninho       Socorrei-me...

 

Tempo,
Que faz toda a dor virar aprendizado
Que faz o dia seguinte ao dia ruim nascer iluminado      Socorrei-me...

 

Tempo,
Que faz a ausência da pessoa amada doer, hora após hora
Até que seja certo um abraço longo que para desabraçar demora      Socorrei-me...

 

Tempo,
Que a tudo muda e que desnuda tudo o que tentou ficar oculto

 

Tempo,
Que vela e desvela

Tempo,
Que é cavalo e sela do nosso cavalgar

 

Socorrei-me,

 

E nunca me deixe do meu cavalo tombar.

 

(original: 26/maio/2010  21h)

Escrito por Angela Gonzalez às 21h17
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08/11/2009


DESENHO DE NÓS POR DENTRO

 

Agora,

Tudo que se passe dentro de nós é luz
Fótons, fragmentos de matéria luminosa
Que se nos imprime na alma
Singelas provas disso tudo

 

Pontos vivos que se condensam e se dispersam
Pontos que brincam de se ocultar
Pontos que fogem para nos mostrar sem o devido foco
Pedacinhos de mim e de você
Que vão a um lugar bem longe
Mas depois voltam e se aquietam

 

Pequenos fachos que se criam onde não havia nada
E onde não havia nada há, agora, plenitude
Há insistência em avançar
Há mudança
Há todo tipo de luminescência 

Fim da ausência de alguém que jamais conheci


Há um elo
Um colo
Um porvir...

 

(original: 15/out/2009   19h)

Escrito por Angela Gonzalez às 16h11
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14/03/2009


RAMOS


Agora, por ora,
Você deixa de ser gente e vira lugar
Onde vou me embalar sempre que preciso de paz

Nossas delicadas relíquias
Eu as guardo em lugar bem seguro
Estão lá a sete chaves
Guardadas a unhas e dentes
Igual como você me guardava
Tudo dentro de uma caixinha
Escondida longe do reboliço do mundo

Depois,
Pego um punhado delas
E planto na margem dum rio pra virar árvore
Na margem desse rio e no pé da nossa árvore,
Construo um porto
E faço de você minha paragem
Um lugar pra ser meu ponto de chegada
Na hora em que a vida me levar de novo no rumo certo...

 

(original: 14/março/2009)

Escrito por Angela Gonzalez às 12h21
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31/01/2009


PETECAS EM MEUS CABELOS

 

Um pedaço de céu deslizou

E caiu nos cabelos da moça

Que se via junto às flores do canteiro

 

Se sua peteca azul voltou

Cócegas vão percorrer sua coluna

Numa brincadeira sem paradeiro

 

A bolinha de anil teima em desmanchar suas tranças

Seus cabelos em voltas de anéis e alianças

Não resitem aos volteios divertidos

Risinhos incontidos e lânguidos devaneios

Trazem a suave esfera quando lhe toca os seios

Quando lhe percorre os sonhos

Que sonha em realizar sem ter os meios

 

Minha peteca azul voltou

Encontrando-se e perdendo-se em minhas costas

Esparramando meu corpo na areia morna das encostas

 

Minha peteca azul voltou, novinha em folha,

Mas, daqui a pouco, vai sumir

Explodindo alegremente como bolha.

 

 

(original: 09/dezembro/2008)

Escrito por Angela Gonzalez às 18h31
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14/11/2008


VOYER

 

Olhos de imperador colam-se nos meus

E seguem-me por um caminho imaginário

Onde me vejo enredada

Desde a manhã em que te fui desenhada

 

Mostro-me

E olhos se agigantam

Imperativos,

Furtam-se à entrega

Obrigatórios,

Deixam um rastro de infantil desejo

 

Proibida aventura de voyeur enfeitiçado

Olhar, olhar, só olhar

Tipo de "um pouco ter", sem ter

Só ver...

Sem crer que sou real

E que vivo ali, à tua frente

Sem te tocar

Só ver... apenas olhar

 

(Original dia 14/nov/2008)

Escrito por Angela Gonzalez às 23h36
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10/08/2008


QUIETA E ATENTA

 

Nas tardes amarelas,
Caminho sem ninguém

Ouvindo as samaumeiras


Com elas aprendi

Que não importa o seu tamanho,
Um dia você tomba pela força de algum rio de nome estranho.


Já com o rio eu entendi que distância não é nada
A terra que em seu leito faz parada
Navegou milhas e milhas pra cumprir sua jornada


Também o rio foi quem me disse na calada
Que eu, que me via caminhando sempre só,
Ainda assim, sempre andei acompanhada

 

Porque distância, diz o rio,

Nunca foi, nem nunca será nada...

A distância, diz o rio, ela se acaba quando chega o momento da chegada.

 


(Original aos primeiros minutos de 10/08/2008)

Escrito por Angela Gonzalez às 01h09
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23/06/2008


RETORNO AO CONTINENTE

 

Deixo minha terra para trás
Cheia de luzes piscando

 

É junho
Meio ano se foi
Meio ano a ser feito
Meio ano vivido
Meio ano por vir
Meio ano eu já conheço
Meio ano a descobrir
Meio texto lido
Meio livro escrito
Meio amor sentido
Meia grande lua
Luz inteira
Amanhã, serei tua alegria primeira
Tua primeira luz do dia
O primeiro dia do resto do teu ano
O primeiro ano do resto da tua vida
Serei da tua chuva a estiagem
Do teu passo a passagem
Tua vinda e tua ida
Teu único ponto de partida
Meu amor
Minha vida

 

Escrito por Angela Gonzalez às 22h44
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02/05/2008


DO OLHAR ÀS SOMBRAS

 
Teu olhar me acompanhou até aqui
Se eu dormia ou se eu sonhava
Ainda assim, o teu olhar me acompanhava

 

Teu olhar fez casa onde jamais eu poderia me ocultar
Dos meus sonhos teu olhar fez seu próprio lar
Escondeu-me num ponto onde nem eu me acho
Beira de um penhasco, foz do teu riacho

 

Teu olhar relampeou meu olho
E germinou minhas margens disso que agora eu colho
Depois, teu olhar virou brisa morna
E saiu, vagueando sorrateiro pela orla

 

Agora, teu olhar é sombrio, escuro
Reflete a cara da lua num pedaço de aço puro
Não o vejo, mas ainda brinco sob teu olhar atento
Mas, mesmo se tento, não consigo mais vê-lo ali atrás do muro

 

Teu olhar virou minha insegurança
Porto inseguro onde pernoita sozinha uma criança

 

Original em 20/abril/2008

Escrito por Angela Gonzalez às 18h35
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01/03/2008


PERCEPÇÃO


Seu cérebro era um bicho verde
De amplas narinas e boca ansiosa
Que corria de um lado a outro do cercado
Atônito
Atormentado


 

Sorvia pixels, fótons, altas doses de decibéis mentolados
Diariamente... pixels, fótons e vários megawatts de ondas sonoras
Meses... dias... horas após horas,
Pixels... fótons... sorvidos num prazer efusivo
Pixels... fótons... sugados num sorvedouro sem crivo


Algum dia, no futuro (era sabido desde já!)
Teria comido todo o planeta que eu acabei de inventar
Trêmulo, ele foi ao espelho e a si mesmo prometeu
Que ao chegar no fim de tudo
No olho do mundo que o tinha como seu
Impediria seu cérebro de comer o derradeiro pedaço


E passou a seguir, cauteloso, um minucioso passo a passo
A duras penas e a doses pequenas
De pixels, fótons e ondas de calor.


 

Mas veio o tempo...
E, um dia, o mundo acabou
Seu cérebro foi minguando até que virou uma flor.

 

Escrito em 29/02/2008, às 3h05

Escrito por Angela Gonzalez às 15h25
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17/02/2008


DE VOLTA PARA CASA


Corre para abrir a janela, volta e brinca no quintal
O que tem de bom pra fazer, faz hoje!
Esquece isso de "Só se for dia tal"
Em aproveitar a vida debaixo de fruteira
Gente inteligente dessa terra inteira
Há de dizer que não há de haver no mundo decisão mais certeira
Então brinca, pega, beija, acende uma fogueira
Mesmo que não vá haver lual
E, se der vontade, sai agora pra voltar só no outro carnaval

 


Escorrega divertida pela areia, pega tudo que te pesa e arreia
E da infância, guarda tudo o que couber na tua lembrança
Até o que tua mãe te ensinava quando te dava uma peia

 


Corre, brinca, espreguiça e dança uma dança
Desmancha a trança que a mãe apertou até doer tua cabeça
E canta, brinca, pula, sapateia, serpenteia no vento e te balança

 


Depois de tudo isso, molha o rosto, lava o cabelo e relaxa
Conversa com alguma criança, mas antes de falar te abaixa

E deixa que os outros achem que o teu mundo é estranho
Aos homens de terno escuro e às senhoras de taier castanho
Mande gentilmente que se metam com alguém do seu tamanho!

 


Escrito dia 15/02/2008 às 2h da madrugada

Escrito por Angela Gonzalez às 12h45
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24/12/2007


DO AMOR À VIDA

 

Minha sombra em luz
Minha quimera
Minha dose de doce efemeridade

 

Meu porto
Meu isto feito e posto
Meu entreposto entre o eu e o outro

 

Minha língua estrangeira em terra natal
Meu quintal em final de semana
Minha ama que me cuida e acalanta
Minha planta que floriu por toda a minha rua

 

É só minha e tua
Essa mania que a vida nos fez
De cantá-la pelas ruas em francês
Em polonês ou em bom português

 

Qualquer língua, enfim, em minha boca é tua agora
Então, me escuta e me decora
E faz gravar em ti o que te digo:
"J'aime la vie" ficará tatuado em meu umbigo

 

24/12/2007  às 2h30 da madrugada

Escrito por Angela Gonzalez às 18h06
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27/11/2007


TUA AUT TUA

 

Ave de rapina e peixe
Samaumeira de pé e troncos dispostos em feixe
Se decido ir você diz "me deixe"
Se me oculto é que me queres nua
Sol de meio dia e fase nova da lua
Ação que insiste em se instalar em cama que flutua
Quarto quente que briga pra ocupar o vazio do olho da rua

 

E, no entanto,
       Ainda assim,
               E apesar de tudo...

 
Minha boca só consegue encontrar a tua...

Escrito por Angela Gonzalez às 14h35
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01/10/2007


DOS OPOSTOS

 

Ao contrário de mim, meu inverso
Jogo de palavras desconexo
E eu, feita de espelhos,
Tento traduzir o teu reflexo

 

Vermelho em matiz de segurança
Vapor que me abraça, me enlaça e lança
Uterino, transparente e constante
Alento suave e lento

 

Trem que chega na estação em hora certa
Sono que vem de manhã se a madrugada é farta
Lua que se encheu em fase aberta
Rumo sem trajeto, de esperança incerta

 

Meu inverso, universo contrário de mim
Conexão de palavras em jogo de criança
Teus cacos de espelho se desfazem em minha trança
Pego teu reflexo e o traduzo em uma dança

 

Sorvo o vermelho seguro do teu quarto
Te lanço e te enlaço num outro tipo de abraço
Cortas meu útero em líquido transparente
Que num alento se derrama lentamente

 

Trilho que dá rumo ao trem
Madrugada caudalosa que induz ao sono
Mar aberto que se encheu da minha lua
Rumo que acerta a minha meta num trajeto ao contrário da tua

 

(original escrito: 29/09/2007)

Escrito por Angela Gonzalez às 12h00
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23/09/2007


ONÍRICA

 


Beijo teus olhos e te dou boa noite
Que sonhes comigo a noite inteira!
Que sonhes também com anjos ciumentos
Que me levam de ti carregada em brancas asas

 

E que...
Atormentado, tu acordes com tuas costas molhadas
Com a respiração de quem correu dez léguas
Com o tremor da criança no minuto anterior ao quarto escuro
Com a ansiedade da mãe em seu primeiro parto

 

E que num impulso olhes para os lados
E que me encontres dormindo ternamente
Com meus cabelos por tua cama espalhados
Com minhas pernas e braços entre os teus

 

E que...
Aliviado, toques o meu rosto com mão quente
Que me envolvas a cintura com teu braço
Que me puxes para um pouco mais juntinho
Que teu corpo vire concha sobre o meu

 

E que...
Ainda assim tendo-me tão perto
Ainda sintas um frio a te tremer por dentro
Ainda temes que os ciumentos de asas longas
Ainda voltem a me roubar enquanto dormes

 

E...
Que eu, pressentindo teu temor, me desperte
Que em teu socorro eu gire o corpo e ao teu me aperte
Te abraço
                     Te beijo o peito
                                             Te tranqüilizo...
                                             Te encaixo minha caixa de sonhos sob o teu queixo

                                            

                           Me beijas
                                        Adormeço...
                                                          Adormeces.

Escrito por Angela Gonzalez às 07h06
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09/09/2007


Nudez


Meu corpo é pequena armadilha
Onde cairás em instantes


Olha-o... deseja-o...
Sente os fluidos que dele exalam te entranhando as narinas...


Entras no santuário esperando encontrar carne
Mas te deparas com um anjo azul que cintila sobre tua cama
É meu personagem oculto que se levanta
Descerrando as cortinas da tua paz


Surpresa inquietante.
Caíste.
Estás preso.

Escrito por Angela Gonzalez às 15h28
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